Marina

Por Raquel de Almeida Moraes, da Faculdade de Educação – UnB/DF, abril de 2005

Bill Gates (1995), proprietário da empresa Microsoft, em seu livro: A Estrada do Futuro, salienta que a capacidade para a inovação será muito importante para que sejam superadas as desigualdades sociais e culturais entre classes e povos. Em suas palavras: "A educação não é a resposta total para todos os desafios criados pela Era da Informação, mas é parte da resposta, da mesma maneira que a educação é parte da resposta para uma gama dos problemas da sociedade" (...) "A educação é o grande nivelador da sociedade, e toda melhoria na educação é uma grande contribuição para eqüalizar as oportunidades" (GATES, 1995: 316).

Mas para que isso ocorra é necessário que a educação seja propiciada não só em bases políticas mais amplasabrangendo a totalidade da populaçãocomo também se traduza numa prática educacional propícia ao desenvolvimento da autonomia e da participação, e não a reprodutora, memórica e servil como tem sido a educação brasileira e internacional ao longo dos séculos.

A nosso ver, mesmo no atual modelo pós-fordista, a Qualidade Total tem limites, pois a polivalência, a multitarefa, a tomada de decisões, o trabalho em equipe, o Círculo de Controle de QualidadeCCQ, a produção simplificada e "on-line", a gerência "participativa", entre outros, têm como pressuposto o monopólio do mercado e da produção por uma minoria, tornando privilégio o que deveria ser um direito.

A escola unitária, pública, gratuita e obrigatória, com qualidade, parece estar cada vez mais longe de constituir uma realidade para a maioria da população. Frente à realidade atual, Gentili (1995) desenvolve a hipótese de que "(...) o neoliberalismo ataca a escola pública a partir de uma série de estratégias privatizantes, mediante a aplicação de uma política de descentralização autoritária e, ao mesmo tempo, mediante uma política de reforma cultural que pretende apagar do horizonte ideológico de nossas sociedades a possibilidade mesma de uma educação democrática, pública e de qualidade para as maiorias. Uma política de reforma cultural que, em suma, pretende negar e dissolver a existência mesma do direito à educação". (GENTILI, 1995: 224)

E essas reformas culturais vêm ocorrendo, sobretudo, na esfera da reqüalificação do trabalho com as novas tecnologias, tendo por objetivo a realização de uma modernização conservadora que acaba por exacerbar a relação escola-trabalho e a qualidade como propriedade, o que nesta era de desemprego tecnológico constitui-se numa "educação para as minorias".

Como pensa Schaff (1992): as novas relações da divisão do poder político, econômico, social e cultural com as novas tecnologias, num futuro próximo, poderão se dar, sobretudo, "entre aqueles que possuem informações pertinentes sobre diversas esferas da vida social e aqueles que estarão privados destas em razão de leis relativas a segredos oficiais. Um grande perigo e um problema difícil!". (SCHAFF: 52)

Frente a isso, a distância cultural entre povos e classes já começa a se tornar um fenômeno reconhecido até por organismos internacionais como a UNESCO. Na sua edição de abril de 1995, o Correio da UNESCO, através de Armand Mattelart (1995), alertava que: "A globalização não é incompatível com o crescimento das disparidades. Trata-se, antes, das duas faces de uma mesma realidade". (CORREIO UNESCO, 1995: 12)

Concordamos com o que reflete Hobsbawm (1995): "Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão". (HOBSBAWM, 1995: 562)

Neste sentido, mudanças sócio-culturais mais profundas só se concretizarão, a nosso ver, quando o campo difícil, mas necessário, do direito econômico também se modificar, pois caso contrário, o neoliberalismo fará com que os povos fiquem à mercê do mercado egoísta dos oligopólios.

Nos dias atuais, sem planejamento e sem equilíbrio entre o público e o privado, a barbárie ameaça a paz na Terra. E para isso não acontecer, a cidadania e a dignidade humana, juntamente com os valores fundamentais como a vida, a liberdade de pensamento e expressão, a propriedade (para todos) e a educação devem ser respeitados e garantidos, sem exceção.

Somos, enfim, favoráveis a uma urgente e necessária educação tecnológica e informática de base, com sólidos conhecimentos científicos e éticos, onde as diferentes culturas sejam respeitadas e a solidariedade e a justiça entre os povos levem à superação do egoísmo humano.

Novas tecnologias, cidadania e direitos sociais. Educação, pluralismo tecnológico e diversidade cultural. Ética e hegemonia. Quiçá consigamos criar, como utopia ou cenário contraponto, um imaginário próximo ou similar ao que sonha a poetisa Roseana Kligerman Murray:
.

"No ano 3000
os homens já vão ter
se cansado das máquinas
e as casas serão novamente românticas.
O tempo vai ser usado sem pressa:
gerânios enfeitarão as janelas,
amigos escreverão longas cartas.
Cientistas inventarão novamente
o bonde, a charrete.
Pianos de cauda encherão as tardes de música
e a Terra flutuará no céu
muito mais leve, muito mais leve".


Mais informações: http://www.consciencia.net/2005/mes/08/raquelmoraes-tecnologias.html
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